O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) divulgou nesta sexta-feira (22) a Nota Técnica nº 645/2026, que aponta o avanço das ondas de calor no país e coloca Mato Grosso do Sul em posição de destaque nacional devido à frequência histórica de eventos extremos de temperatura.
O documento analisa o cenário climático associado ao fenômeno El Niño 2026/2027 e reúne dados produzidos a partir de monitoramentos internacionais e estudos meteorológicos sobre a intensificação do calor extremo no Brasil nas últimas décadas.
Em pronunciamento técnico divulgado nas redes sociais do órgão, o coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo, afirmou que os primeiros impactos do fenômeno podem começar a ser sentidos já neste inverno. “Os primeiros impactos em termos de temperatura poderiam ser esperados agora, no inverno deste ano, ou seja, um inverno relativamente mais quente”, explicou.
Marengo ponderou, porém, que ainda não é possível definir a intensidade do fenômeno. “Falar da intensidade do El Niño ainda é muito cedo, porque a intensidade se baseia no aquecimento do Pacífico, mais ou menos esperado para a primavera [outubro]”, afirmou.
Segundo a nota técnica, Mato Grosso do Sul possui a maior média anual de ondas de calor do país no período entre 1979 e 2025, com 14,3 eventos por ano. O Estado aparece à frente de outras unidades da federação frequentemente atingidas por calor extremo.
A análise utiliza a definição da WMO (Organização Meteorológica Mundial), segundo a qual uma onda de calor ocorre quando as temperaturas máximas permanecem entre os 10% mais elevados da média histórica por pelo menos três dias consecutivos.
O Cemaden destaca que, a partir dos anos 2000, consolidou-se um padrão atmosférico denominado “contorno oeste”, associado à concentração das ondas de calor sobre áreas do Centro-Oeste e parte do Sul do país. Nesse cenário, Mato Grosso do Sul aparece inserido na faixa de maior intensidade dos eventos extremos.
A nota técnica também relaciona a persistência das altas temperaturas à atuação de bloqueios atmosféricos, sistemas de alta pressão que dificultam a entrada de frentes frias e favorecem a manutenção do calor por vários dias consecutivos.
O documento aponta que os maiores registros de ondas de calor no Brasil ocorreram em períodos associados ao El Niño, especialmente nos episódios de 2014-2016, 2018-2020 e 2023-2024. Segundo o Cemaden, eventos com mais de 25 ondas de calor em um único ano foram registrados apenas durante períodos influenciados pelo fenômeno climático.
A nota destaca ainda que o Amapá registrou 31 ondas de calor em 2024, o maior número já contabilizado no país em um único ano, enquanto o Distrito Federal chegou a 28 episódios em 2019. O estudo também aponta que os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes já registrados globalmente.
Ao comentar os impactos associados aos eventos extremos, José Marengo defendeu uma postura preventiva por parte do poder público. “Prevenção não é prioridade (no Brasil), é mais recuperação. Mas, desta vez, com o que sabemos dos El Niños anteriores e dos impactos, é melhor o governo se preparar com prevenção, independente se o fenômeno vai ser moderado ou forte”, afirmou.
Entre as medidas citadas pelo pesquisador estão o fortalecimento de brigadas de incêndio em regiões vulneráveis e ações preventivas em cidades sujeitas a alagamentos e impactos climáticos extremos.
