Há quase uma década, a TV Globo afirmava alcançar 100 milhões de brasileiros todos os dias. Hoje, em plena Copa do Mundo, comemora ter reunido a exata metade desse número: 50 milhões. Uma diferença que diz muito sobre o atual momento da mídia no Brasil e no mundo.
Lançada em outubro de 2017, a campanha 100 Milhões de Uns destacava que a TV Globo alcançava, em média, 98 milhões de espectadores ao longo de 24 horas. A empresa ainda destacava uma média de 14 milhões acessando diariamente suas propriedades digitais, como G1, Gshow e Globoplay.
A iniciativa era uma demonstração de força do grupo em um momento em que a atenção do público começava a se fragmentar. Era também uma resposta ao avanço da publicidade nas plataformas digitais, que prometiam segmentação e mensuração precisas para anunciantes, enquanto a TV aberta seguia apostando na personalização junto do alcance em massa.
Nove anos depois, o cenário mudou. Na Copa do Mundo, evento que historicamente reúne os brasileiros diante do televisor, a mesma Globo diz ter alcançado 46,4 milhões de pessoas com a partida de abertura, entre México e África do Sul. O número reúne os espectadores do canal aberto, do Sportv e do Ge TV.
Já a estreia do Brasil no torneio, o empate contra Marrocos, alcançou 49,9 milhões, segundo a empresa. O dado também considera TV Globo, Sportv e Ge TV. Foi a “maior audiência no horário em dez anos”, destacou o grupo. A partida começou às 19h de um sábado.
Considerando a aferição do Ibope, a queda segue quase o mesmo padrão. Na estreia brasileira na Copa de 2018, a emissora marcou 55,2 pontos no Painel Nacional de Televisão (PNT). Em 2022, com a CazéTV operando e também transmitindo a partida, a audiência foi de 51 pontos, com 77% dos televisores ligados sintonizados na Globo. Em 2026, foram registrados 33 pontos, com 55% de share.
Obviamente, há uma ressalva importante. O alcance diário divulgado em 2017 era o acumulado ao longo de 24 horas. Uma pessoa podia assistir ao Bom Dia Brasil pela manhã, à novela à noite ou ao Jornal Nacional por alguns minutos e, ainda assim, entrar nessa conta. Já um jogo é um evento de poucas horas.
Por outro lado, se nem a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo consegue chegar perto dos 100 milhões, isso ajuda a dimensionar o quanto o Brasil de 2026 é mais fragmentado do que o de 2017. Não parece haver outros 50 milhões de “uns” esperando para sintonizar na Globo no restante do dia.
A queda de alcance é reflexo direto de um mercado audiovisual muito diferente daquele de 2017. Se no passado a televisão possuía a hegemonia da atenção, hoje ela está totalmente pulverizada. Em 2018, os brasileiros podiam acompanhar a Copa apenas por Globo e, na TV fechada, Sportv e Fox Sports.
Na Copa da Rússia, em 2022, o grupo carioca abriu mão da exclusividade nos direitos de transmissão na internet. Isso deu espaço para a LiveMode, que montou a CazéTV no YouTube junto com o streamer Casimiro Miguel. Para a Copa do Mundo de 2026, o cenário virou: é a CazéTV que tem todo o torneio, com a Globo sublicenciando cerca de metade dos jogos. No YouTube, a mesma partida entre Brasil e Marrocos teve pico de mais de 12 milhões de views simultâneos.
Há, ainda, a competição interna na própria mídia: o SBT, em parceria com a N Sports, também garantiu partidas da Copa e trouxe Galvão Bueno para narrar os jogos da Seleção. O canal aberto afirma que conquistou 11,12 pontos de média no Ibope em São Paulo no empate contra Marrocos, e uma audiência nacional de 22,5 milhões de pessoas.
Contudo, a mudança é ainda mais profunda. Se em 2017 a televisão tradicional já concorria com YouTube, Netflix, portais de notícias e redes sociais, em 2026 vivemos o auge das plataformas de vídeos curtos, como TikTok, Instagram e Kwai. O smartphone deixou de ser a segunda tela para se tornar o centro das atenções.
A pulverização também traz outros dois fenômenos. O primeiro é que nem todos irão acompanhar a Copa do mesmo jeito. Cresce entre os jovens o hábito de consumir cortes, trechos, paródias e memes do evento esportivo, sem jamais assistir à partida na íntegra. Além disso, o cenário favorece o crescimento do público que simplesmente não vê nada do torneio da Fifa.
A métrica mais disputada hoje pela mídia já não é apenas o alcance, mas o tempo de atenção. Não basta chegar a muita gente, é preciso retê-la por mais tempo. Considerando tudo isso, a conquista da Globo com seus 50 milhões de “uns” na Copa do Mundo ainda é digna de comemoração. Os outros 50 milhões não desapareceram, apenas mudaram de tela.
