O Ministério Público de Mato Grosso do Sul notificou as empresas Suzano e Eldorado Brasil para que apresentem, em 15 dias, esclarecimentos sobre possíveis danos ambientais causados pela expansão dos eucaliptais no leste do estado. O ofício foi enviado no último dia 10 pelo promotor Antônio Carlos Garcia de Oliveira, de Três Lagoas, às sedes das empresas em São Paulo. Outras duas gigantes do setor, Arauco e Bracell, também podem ser chamadas a se manifestar no decorrer do inquérito civil.
As notificações marcam uma mudança na relação entre o poder público e o setor de celulose, tratado como prioridade estratégica para o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul desde o início dos anos 2000. As articulações para atrair as primeiras grandes indústrias começaram no governo Zeca do PT e ganharam impulso em Três Lagoas durante a gestão da então prefeita Simone Tebet. O inquérito teve origem em um pedido do próprio Zeca, baseado em um laudo do gestor ambiental e secretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valticinez Santiago, que citou cerca de 400 nascentes supostamente secas pelos eucaliptais. O MP, no entanto, concluiu em investigação prévia que são necessários mais dados científicos para relacionar os danos à expansão da silvicultura ou a áreas já degradadas pela pecuária.
Em nota, a Suzano informou que não recebeu a notificação e afirmou manter compromisso com a conservação ambiental, realizando plantio apenas em áreas anteriormente ocupadas por atividades agropecuárias. A empresa destacou ter política de desmatamento zero, certificações internacionais e 327 mil hectares destinados à conservação da biodiversidade em Mato Grosso do Sul. A Eldorado não se manifestou sobre a investigação, mas disse que atua em conformidade com a legislação brasileira e com padrões de governança e transparência.
A investigação do MP se apoia em estudos que começaram a revelar os possíveis impactos dos eucaliptais sobre recursos hídricos, biodiversidade e microbacias do Cerrado. Um dos principais é desenvolvido desde 2019 pela geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS. Parte do trabalho foi publicada em 2022 e documentou, por meio de entrevistas e imagens de satélite, as transformações em comunidades rurais do leste sul-mato-grossense. A pesquisa combina imagens históricas do MapBiomas desde 1985, análise de microbacias, séries pluviométricas e entrevistas com moradores e agricultores.
O cruzamento dessas fontes aponta para um processo cumulativo de degradação ambiental, acelerado nos últimos 15 anos pela expansão do monocultivo de eucalipto sobre paisagens já alteradas pela pecuária. A série histórica do parecer técnico que embasa o inquérito mostra que a área plantada com eucalipto passou de 35.358 hectares em 1985 para 189.749 hectares em 2007, alcançando 893.320 hectares em 2024. Levantamento atualizado em 2025 estima que o estado já possui 1.729.763 hectares de florestas plantadas. No mesmo período, a vegetação nativa caiu de 4.107.983 hectares para 1.562.499 hectares, uma perda superior a 2,5 milhões de hectares.
A pesquisadora Marine Dubos-Raoul afirma que o problema não é o eucalipto sozinho, mas o cultivo em grande escala e seus impactos. Ela cita um conjunto de fatores: um Cerrado praticamente eliminado, um clima naturalmente mais seco e uma cultura exigente em água. A geógrafa evita atribuir o secamento de nascentes exclusivamente ao eucalipto, mas demonstra que a sucessão de transformações na paisagem reduziu a capacidade de infiltração da água e de recarga dos aquíferos. A série histórica de chuvas indica que o volume anual de precipitação permaneceu estável, insuficiente para explicar sozinho a redução da vazão em córregos e nascentes. “É difícil afirmar que o eucalipto seca as nascentes. O que consigo afirmar é que essa ocupação do solo vem contribuindo para a escassez hídrica”, disse.
