Eduardo Rodrigues, de 75 anos, e Agenor Vicente Martins, de 70, somam juntos 102 anos de trabalho na mesma empresa, a Sanesul, em Mato Grosso do Sul. Eduardo, que tem mais de 52 anos de casa, já tem data para sair: outubro. Para se acostumar com a ideia, ele trocou o uniforme por camisetas comuns. “Eu estou até deixando de usar o uniforme da empresa. É para ir me acostumando”, conta.
Agenor, que acaba de completar 50 anos na empresa, ainda evita pensar em despedida. “Enquanto eu tiver força e saúde para trabalhar, quero ficar até o fim”, afirma. A história dos dois não se resume aos números. Entre hidrômetros, redes de água e madrugadas de serviço, eles construíram uma forma própria de enxergar o trabalho.
Agenor entrou na empresa em 1976, aos 19 anos, quando o saneamento de Campo Grande era ligado à prefeitura. Na carteira profissional, só tem dois registros: seis meses como vendedor da Coca-Cola e o emprego atual. Ele começou como motorista e enfrentou uma rotina pesada, com jornadas que iam até perto da meia-noite. “Aguentei, e as coisas melhoraram”, lembra. Em 1990, foi para o laboratório de hidrômetros, onde atua até hoje na parte administrativa.
Foi dentro da empresa que Agenor criou as filhas. “Eu cresci junto com a Sanesul e criei minhas duas filhas aqui dentro. Eu tenho duas famílias: uma em casa e outra aqui.” O casamento com Regina dura 47 anos. O “casamento” com a empresa chegou aos 50.
Eduardo chegou à empresa ainda mais cedo. Nascido em Campinas (SP), trabalhava desde os 7 anos. Começou como auxiliar de encanador, abrindo valas e quebrando asfalto. “Eu sofri para poder me adaptar. Tinha dia em que chegava em casa e não conseguia fechar a mão”, recorda. Ele acompanhou obras que mudaram a paisagem de Campo Grande, como a canalização da Rua Maracaju, que acabou com enchentes que carregavam até botijões de gás.
No laboratório, Eduardo ajudou a desenvolver processos de medição de água. Antes de sair, treina dois funcionários para repassar o conhecimento acumulado. “Eles vão receber tudo o que eu sei. Só não sei se vai dar tempo de recolher todas as informações”, diz. Eduardo já estava aposentado havia quase 18 anos, mas continuou trabalhando. Em outubro, ao completar a idade limite, terá de deixar a rotina.
A dificuldade de parar não está ligada só ao salário. Para Agenor, levantar cedo e vestir a roupa de serviço fazem parte da identidade. “O que me preocupa é o dia em que eu tomar café e não puder mais vestir a roupa para vir ao serviço.” Ele já viu colegas se aposentarem e enfrentarem a tristeza pela perda da rotina. Por isso, admite que ainda não está preparado para passar as manhãs em casa.
Os dois observam uma geração que troca de emprego com mais frequência. Para Agenor, o segredo é assumir responsabilidades. “É vestir a camisa da empresa, assumir as funções com determinação e responsabilidade. Não é trabalhar para se matar, mas trabalhar e fazer bem feito.” Eduardo acrescenta outra qualidade: saber ouvir. “Se eu deixar você falar, pode me passar muito mais do que eu preciso aprender.”
A permanência dos dois chama atenção em um mercado que costuma descartar profissionais acima dos 50 anos. Eduardo argumenta que a tecnologia não substitui a experiência. “As pessoas mais velhas têm muito conhecimento. Se você explorar isso, terá informações muito ricas para alimentar quem está começando agora.” Agenor acredita que a idade nunca o afastou porque ele manteve a disposição. “Antes que o chefe precise me chamar a atenção, eu quero fazer bem feito.”
Em outubro, um deles guardará o uniforme. O outro seguirá vestindo o seu. Antes da despedida, Eduardo faz um pedido: “Envelhecer não apaga a capacidade de produzir, ensinar e encontrar sentido no que se faz”.
